O LAGO CUNIÃ

Ivaldo Viana

HISTÓRIA E LENDA

Os primeiros habitantes do lago Cuniã eram os índios "muras", assim chamados pelos atuais moradores. Com a chegada do homem branco na histórica colonização da região amazônica, os índios entravam em conflito constantes com os aventureiros que também queriam usufruir das riquezas do lago. Peixe em abundância (principalmente o raro pirarucu), castanha-do-pará, açaí e seringueiras atraiam os novos colonizadores.

Cuniã em língua indígena significa "moça jovem". Conta a lenda que, após diversos conflitos entre os índios e os brancos, os primeiros foram obrigados a fugir em canoas para não serem dizimados. Entretanto, uma jovem e bela índia foi capturada e mantida viva em função da sua beleza. Cuniã, porém, ficou muito triste. Numa noite enluarada enfeitiçou a todos e, enquanto dormiam, mergulhou nas águas do lago e nunca mais foi vista. Acredita-se que Cuniã se transformou numa cobra-grande, e está adormecida no poço mais fundo do lago (poço preto). Ela só acordará para defendê-lo. Se um dia resolver ir embora, o lago secará e exterminará todas as fontes de riqueza.

 

PROTEÇÃO E NORMAS

Pescar nas águas do Cuniã não é tarefa das mais fáceis. Primeiro é necessário ter autorização do IBAMA para visitar o local, já que é uma área de reserva. Segundo, ter autorização da Associação dos Produtores do Cuniã para praticar a pesca esportiva. Essas restrições são compreensíveis uma vez que existe, nos termos de um convênio pactuado entre o Governo Federal e a Associação dos Produtores, acordo para que os moradores atuem rigorosamente na fiscalização para a preservação do meio ambiente, e, como contrapartida, recebem o direito de explorar comercialmente a pesca, a extração da castanha-do-pará, açaí, seiva de copaíba e andiroba (uso medicinal). Todas essas atividades, no entanto, devem ser realizadas de forma artesanal, ou seja, não é permitido o uso de redes, malhadeiras, tarrafas, espinhéis, etc. Essa pesca obedece, ainda, a períodos estabelecidos. A pesca do pirarucu é autorizada de 1º de junho à 30 de novembro; do tucunaré, de 1º de julho e 30 de novembro e as outras espécies obedecem os prazos determinados pelo IBAMA em nível estadual.

Para atender os habitantes da região - cerca de cinqüenta e seis famílias com residências fixadas às margens do lago -, a localidade conta com estrutura que permite assisti-los em suas necessidades básicas, tais como: uma escola mantida pelo Estado e um Posto de Saúde mantido pelo Município de Porto Velho; um posto telefônico que permite o contato com qualquer parte do mundo; energia elétrica (obtida através de um gerador e complementada por um sistema de captação solar), permitindo, assim, o desenvolvimento das atividades escolares durante o período da noite, bem como facilitando a guarda e conservação do pescado.

 

CONHECENDO AS BELEZAS DO CUNIÃ

Saindo das águas barrentas do Madeira, e entrando no estreito rio que conduz ao Cuniã, o percurso é um verdadeiro espetáculo de fauna e flora em profusão. A biodiversidade se faz presente em todo seu esplendor. O canto do seringueiro - pequeno pássaro da região - é uma constante durante toda travessia. A presença dos botos é confirmada pelo saltitar de grande cardumes de sardinhas e branquinhas em fuga alucinante. Os jacarés (açu e tinga) se apresentam a todo momento, alertando que é preciso ter cuidado ao navegar nestas paragens. As curvas são acentuadas e exigem muita atenção do piloto, já que freqüentemente depara-se com galhos e paus atravessados no leito do estreito rio. Aconselha-se, aos pilotos de primeira viagem, buscarem orientação de um guia, de preferência um nativo da região.

Após uma hora de viagem, sob todos os aspectos tranqüila, surge com uma imponência majestosa o grande lago. Numa descrição mais aproximada, poderíamos pedir ao leitor imaginar-se como um jogador de futebol que fosse jogar pela primeira vez no Maracanã para defender um título importante. Chegado o momento da grande partida, começa a caminhar pelo túnel estreito do vestiário em direção ao campo, sem ter a mínima idéia do que irá encontrar no final. Subitamente, daquele pequeno espaço, surge um imenso e indescritível cenário onde a água límpida e calma é o impecável gramado, o verde das matas as arquibancadas adornadas com o lilás e amarelo dos ipês e a alegria da "ôla" dos biguás, garças, ciganas, marrecos e mergulhões, vigiados pelo policiamento ostensivo dos tingas e açus. Assim é o Lago de Cuniã.

 

NAS ÁGUAS DO LAGO

Eu já havia visitado o local uma vez sem, no entanto, ter pescado. Desta vez nossa equipe ia preparada para pescar as jatuaranas e matrinchãs que diziam estar presentes no local.

Após a custosa mas gratificante chegada, e ainda ante o vislumbre em que nos encontrávamos, navegamos lentamente até o Posto do IBAMA para registrar nossa presença. Os fiscais ali presentes são todos da própria comunidade e possuem residência constante no local. Registro efetuado e ouvida as recomendações necessárias, navegamos até a residência do nosso anfitrião, mestre TENENTE, como gosta de ser chamado. Além de fiscal, Tenente é irmão do presidente da Associação dos Produtores do Cuniã, o Sr. Jorge Ferreira Lopes.

Após o almoço, regado a uma deliciosa caldeirada de jatuarana, preparamos nosso equipamento de pesca e embarcamos em dois barcos menores com motores de 15 HP, uma vez que a pesca da jatuarana não seria no lago, mas em igarapés estreitos ligados a ele. Preparadas as "tripas de galinha" e minhocuçus, rumamos ao nosso objetivo: fisgar as briguentas matrinchãs e jatuaranas. O sol estava a pino, o que esperançava uma tarde muito proveitosa.

Desnecessário dizer que nossa permissão estava condicionada ao pesque e solte, incondicionalmente, tanto mais pelo período (desova) do que pela intolerância dos nossos anfitriões.

 

FRUSTRAÇÕES INICIAIS

O guia local nos levou, com muita habilidade, por entre canais estreitos e cheios de obstáculos, a um rio de maior envergadura dentre os tantos existentes. Passamos, então, a arremessar e aguardar pelos peixes, utilizando o minhocuçu, isca recomendada pelo nosso piloteiro e guia.

Quem conhece a região amazônica sabe que de novembro a abril as chuvas são intensas e é exatamente quando o nível das águas chega ao limite máximo. Assim foi nossa tarde, chuvosa e sem nenhuma fisgada. Voltamos à vila encharcados, com anzóis a menos e alguns companheiros visivelmente frustrados. Após nos deliciarmos com uma suculenta "galinha caipira à cabidela" no jantar, começamos a programar o roteiro e a estratégia do dia seguinte. Descartamos a pesca do tucunaré, pois, na enchente, eles procuram o igapós para a desova.

Acostumado que sou a ler sobre aventuras de sábios do mundo da pesca, procurei conversar com os mais experientes pescadores da comunidade, que à noite vieram até o local onde pernoitávamos. Após as devidas considerações, concluímos que voltaríamos às matrinchãs e jatuaranas, porém, em outro rio de menor porte, de nome "Cuniãzinho".

 

CONFRONTO COM AS JATUARANAS

Após um café reforçado e alguns sanduíches de pão, queijo e presunto na mochila, partimos para mais um dia de pesca. O domingo amanheceu sem chuva, porém nublado. Ao chegarmos no primeiro poço, optamos por diversificar as iscas. No entanto, ninguém queria encarar a "tripa de galinha", obviamente. Encarei sozinho a "indesejada" e começamos nosso dia de pesca. Em menos de 30 minutos, consegui fisgar e trazer três matrinchãs entre um quilo e um quilo e meio que, depois de devidamente fotografadas, foram libertadas.

Mudávamos constantemente de poços, uma vez que é uma característica da jatuarana fugir ao menor ruído. Evitávamos ao máximo qualquer contato mais forte com o casco do barco - mesmo assim, percebíamos que, apesar de haver muitos peixes no local, não estavam dispostos a "pegar" nossas iscas. Além da minha isca ser diferente da dos meus companheiros, optei por seguir o conselho do nosso guia e não usei nenhum "empate" em função da limpidez da água. O mais interessante e engraçado é que meus "enjoados" companheiros se enjoaram literalmente com o mau cheiro da minha isca, e, mesmo não pegando absolutamente nada com o minhocuçu, preferiram voltar para casa "sapateiros".

Durante todo o dia ainda fisguei uma quantidade razoável de jatuaranas e matrinchãs. Ao final da tarde, a chuva voltou a castigar e não passou mais até o meio dia do dia seguinte. Retomamos o longo caminho de volta após a chuva.

Ao nos despedirmos daquele local, daquela gente, sentimos uma vontade estranha de não querer voltar, de ficar mais um pouco, de poder sentir mais intensamente o contato com a natureza, que naquele ponto específico foi tão gentil e perfeito, digno de uma bela donzela índia CUNIÃ.

 

OUTRAS INFORMAÇÕES SOBRE O LOCAL

- A pesca artesanal retira anualmente 8 toneladas de pescado do lago, dividido em 30 profissionais arpoadores;
- Segundo os pescadores locais, a super população de jacarés está contribuindo decisivamente para a diminuição da quantidade de peixes;
- Ao todo são 310 pessoas que habitam no local e todas devidamente cadastradas;
- Em cinco anos, houve somente cinco óbitos;

IVALDO VIANA

ivaldofviana@objetivonet.com.br

Pescador esportivo há 20 anos, já pescou nos principais rios da bacia amazônica e do pantanal. Para pescarias não existe tempo ruim. É administrador e trabalha no Tribunal de Contas do Estado de Rondônia.